Na maior parte dos peptídeos que chegam ao consultório pelo mercado paralelo, o problema é o vazio: não há estudo, não há dose, não há farmacovigilância. O Melanotan II é a exceção — aqui existe literatura de segurança, e ela é desfavorável. A evidência humana de eficácia para bronzeamento é um estudo piloto de fase 1 com três voluntários, publicado em 1996. A evidência de dano inclui melanoma, nevos eruptivos e displásicos, priapismo isquêmico, rabdomiólise, infarto renal e encefalopatia posterior reversível — cada um com relato indexado.
Resposta direta
- São duas moléculas. A afamelanotida (melanotan I) é um análogo linear de 13 aminoácidos, com registro no FDA e na EMA para uma doença rara. O Melanotan II é um heptapeptídeo cíclico, sem registro em lugar nenhum. É o segundo que se vende.
- Eficácia: não existe ensaio controlado de Melanotan II para bronzeamento. O que existe é um piloto de fase 1 com 3 voluntários.
- Segurança: há relatos indexados de melanoma cutâneo e de mucosa oral, nevos eruptivos e displásicos, priapismo isquêmico refratário, rabdomiólise com lesão renal, infarto renal e encefalopatia posterior reversível.
- Identidade do produto: frascos rotulados com 10 mg continham entre 4,32 e 8,84 mg, com impurezas de até 5,9%; em outra amostra apreendida, a pureza medida foi de 30%.
- Fotoproteção: não há evidência de que reduza queimadura ou câncer de pele. Há dado observacional na direção oposta — usuários de bronzeadores injetáveis usam câmara de bronzeamento com mais frequência.
São duas moléculas diferentes, e só uma tem registro
A confusão entre melanotan I e melanotan II é o eixo de quase todo o material promocional, e precisa ser desfeita antes de qualquer outra discussão.
Afamelanotida (melanotan I)
É um peptidomimético linear de 13 aminoácidos do hormônio alfa-melanócito-estimulante, com norleucina na posição 4 e D-fenilalanina na posição 7 no lugar dos resíduos naturais. Tem registro na EMA desde 22 de dezembro de 2014 — sob circunstâncias excepcionais, categoria usada quando o solicitante não consegue fornecer dados abrangentes de eficácia e segurança em condições normais de uso — e no FDA desde 2019, como implante subcutâneo de 16 mg.
A indicação é única e restrita: aumentar o tempo de exposição à luz sem dor em adultos com protoporfiria eritropoiética, uma fotodermatose rara. Não é indicação estética. Na Europa, só pode ser prescrita por especialistas em centros reconhecidos para tratamento da doença.
Os dois ensaios de registro — publicados no New England Journal of Medicine, com 74 pacientes na União Europeia e 94 nos Estados Unidos — mediram horas de exposição solar sem dor: mediana de 69,4 contra 40,8 horas no estudo americano em seis meses (p = 0,04) e 6,0 contra 0,8 hora no europeu em nove meses (p = 0,005). São desfechos de dor e qualidade de vida em uma doença específica. Nenhum dos dois mediu queimadura solar, dano de DNA ou câncer de pele.
Melanotan II
É outra coisa: um heptapeptídeo cíclico com ponte lactâmica, de massa 1.024 Da, agonista não seletivo dos receptores de melanocortina. A falta de seletividade explica o perfil de efeitos: não age só no MC1R do melanócito, mas também nos receptores centrais ligados a apetite, náusea e ereção. Não tem registro em nenhuma agência, para nenhuma indicação.
Quando um material de venda cita "aprovação regulatória" ou "ensaios de fase 3", está citando a afamelanotida. É evidência de outra molécula, para outra doença.
A evidência de eficácia: três voluntários
O estudo humano de bronzeamento com Melanotan II é Dorr, 1996: piloto de fase 1, simples-cego, com injeções alternadas de solução salina ou MT-II, em três voluntários homens saudáveis. Dose inicial de 0,01 mg/kg, escalonada até 0,03 mg/kg. Resultado: dois dos três sujeitos apresentaram aumento de pigmentação em face, tronco superior e nádegas.
No mesmo estudo já apareceram os efeitos hoje descritos como "colaterais": náusea leve na maioria dos níveis de dose, sonolência e fadiga grau II em um dos dois sujeitos que chegaram a 0,03 mg/kg, e um complexo de espreguiçamento e bocejo correlacionado ao início de ereções penianas espontâneas de 1 a 5 horas.
Esse é o corpo de evidência humana de eficácia. Não há ensaio controlado, não há fase 2, não há estudo indexado que tenha medido durabilidade da pigmentação, dose ideal ou desfecho estético.
O ensaio randomizado e controlado por placebo que de fato existe é de 1991, com 28 homens, e testou a outra molécula — o análogo linear que veio a se chamar afamelanotida. Houve escurecimento significativo da pele, e nenhum no placebo. Note o detalhe metodológico: todos os participantes usaram protetor solar de alta potência durante o estudo. O trabalho demonstrou pigmentação sem ultravioleta; não demonstrou proteção contra nada.
A trilha de desenvolvimento do MT-II, aliás, não foi cosmética. Ele foi levado adiante como agente para disfunção erétil: em estudo cruzado, duplo-cego, controlado por placebo, produziu ereção clinicamente aparente em 8 de 10 homens com disfunção erétil psicogênica, com rigidez de ponta acima de 80% por média de 38 minutos contra 3 no placebo. A ereção não é efeito colateral bizarro. É efeito no alvo.
Nevos, lesões melanocíticas e melanoma
Este é o dado que precisa ser dito com precisão — nem inflado, nem suavizado.
O que está estabelecido
Alterações melanocíticas induzidas por melanotan são consistentemente reprodutíveis na literatura de caso, em vários países e por quase duas décadas:
- Cardones e Grichnik, 2009. Homem de 40 anos com história de melanoma e múltiplos nevos displásicos, autoadministrando alfa-MSH sintético. Desenvolveu safras de nevos pigmentados novos, muitos com atipia clínica e histopatológica; os nevos preexistentes escureceram e adquiriram sinais de crescimento. Após a suspensão, as lesões clarearam progressivamente e perderam os sinais de crescimento. Essa reversibilidade é um argumento forte de causalidade.
- Nevos eruptivos. Uma revisão sistemática de 93 artigos e 179 pacientes com nevos melanocíticos eruptivos atribuiu 41% dos casos ao conjunto imunossupressores, quimioterapia ou melanotan. Entre o total, 16% tinham ao menos um nevo displásico confirmado histologicamente.
- Confusão diagnóstica. Em videodermatoscopia sequencial documentada antes e durante o uso, as mudanças observadas tornaram difícil diferenciar nevo de melanoma. Para quem faz seguimento de lesões pigmentadas, isso é um problema imediato: o peptídeo degrada a qualidade da própria vigilância.
Melanoma
Aqui é preciso separar o que é relato do que é demonstração.
Uma revisão de 2017 sobre riscos do uso não regulado de análogos de alfa-MSH registrou que quatro relatos descreveram melanomas surgidos de nevos preexistentes durante ou pouco depois do uso de melanotan. Entre os casos indexados: melanoma cutâneo em mulher de 20 anos com fototipo II, três meses após um curso de 3 a 4 semanas de autoinjeções. Em 2025, melanoma maligno de mucosa oral em mulher de 22 anos que usava Melanotan II em spray nasal. Em 2026, cinco melanomas primários in situ em um único paciente com uso recente de câmara de bronzeamento, exposição a melanotan e uso de anabolizantes.
A ressalva metodológica, que é real: são relatos e séries de caso, quase sempre em pessoas que também usaram câmara de bronzeamento. Não há coorte que quantifique risco atribuível ao melanotan, e provavelmente nunca haverá. Ausência de estudo epidemiológico não é ausência de risco — e aqui o raciocínio farmacológico corre na mesma direção dos relatos: estimular de forma sistêmica e crônica o receptor que comanda proliferação melanocítica, em quem já tem nevos displásicos ou história de melanoma, é decisão que exige justificativa.
A prova mais econômica de que a preocupação é séria vem do próprio produto aprovado: a bula do FDA para a afamelanotida adverte que o medicamento "pode levar a aumento generalizado da pigmentação cutânea e escurecimento de nevos e efélides preexistentes" e recomenda exame de pele de corpo inteiro duas vezes por ano. Essa é a exigência para a molécula com registro, dose padronizada e prescrição restrita a centros especializados. O que circula no mercado paralelo é a outra, sem nada disso.
