Em uma sindicância no Conselho Regional de Medicina, o prontuário é a única prova de que a sua conduta foi correta. Não é a sua memória, não é a palavra do paciente e não é o desfecho clínico — é o que está registrado, datado e assinado. Quando você prescreve peptídeos, muitos deles off-label ou em fórmula manipulada sem registro na ANVISA, o registro deixa de ser burocracia e passa a ser a sua defesa. Este texto mostra o que documentar, como colher consentimento em linguagem que o paciente realmente entende e como tratar recusa, abandono e alta sem deixar brechas.
A lógica que atravessa todo o artigo é simples: proteja o paciente e proteja o registro na mesma consulta. Uma conduta tecnicamente impecável que não foi anotada é, do ponto de vista do processo ético-profissional, uma conduta que não existiu.
O prontuário é a única prova que sobra na sindicância
Quando chega uma representação ao CRM — de um paciente, de um familiar, de outro profissional ou de ofício —, a instrução do processo se apoia em documentos. Testemunho é frágil; o desfecho clínico, quando ruim, joga contra você. O que resta é o prontuário. O Código de Ética Médica (Resolução CFM nº 2.217/2018) torna o registro uma obrigação: é vedado ao médico deixar de elaborar prontuário legível para cada paciente (Art. 87), e o documento pertence ao paciente, sob guarda do médico ou da instituição.
Três atributos transformam a anotação em prova:
- Contemporaneidade — registre na hora ou no mesmo dia. Anotação feita depois que o problema apareceu perde força e levanta suspeita.
- Integridade — sem rasura, sem apagar. Correção se faz por retificação identificada, com data e autor, preservando o texto anterior.
- Guarda — o prontuário deve ser mantido por, no mínimo, 20 anos a contar do último registro (Resolução CFM nº 1.821/2007), em papel ou em meio eletrônico com os requisitos técnicos exigidos.
Se a sua prescrição de peptídeos é defensável do ponto de vista técnico — e a maior parte é, desde que respeitados registro e indicação —, o problema quase nunca é a conduta: é a ausência de rastro. Para entender quando a própria prescrição é lícita, veja posso prescrever peptídeos no Brasil.
O que registrar ao prescrever off-label ou composto sem registro
Prescrever fora da bula (off-label) ou prescrever um manipulado sem registro não é, por si só, infração. É uma decisão amparada na autonomia do médico e na sua responsabilidade individual. O que muda é o padrão de documentação: quanto mais a conduta se afasta da bula e da conveniência regulatória, mais o prontuário precisa mostrar que houve raciocínio, e não improviso.
Registre, para cada prescrição desse tipo, cinco blocos:
Racional clínico
Por que este peptídeo, para este paciente, agora. Diagnóstico, objetivo terapêutico e por que a alternativa registrada em bula não atende (falha, contraindicação, indisponibilidade). É aqui que a decisão deixa de ser "moda" e vira indicação.
Evidência consultada
Cite a literatura em que você se apoiou — diretriz, revisão, ensaio — de forma que qualquer perito consiga localizar. Não precisa transcrever o artigo; precisa nomear a fonte e a data em que a consultou. Anote também o nível de evidência e a sua limitação (por exemplo, extrapolação a partir de estudo pequeno).
Alternativas apresentadas
O que mais existia — inclusive a opção de não tratar — e por que, em conjunto com o paciente, esta foi a escolhida. Documentar a alternativa é o que sustenta que a decisão foi compartilhada, e não imposta.
Plano de acompanhamento
Exames de base e de controle, periodicidade do retorno, sinais de alerta orientados ao paciente e quem contatar. Peptídeo prescrito sem plano de seguimento é o achado que mais pesa contra o médico em fiscalização.
Critérios de suspensão
Defina antes o que faz parar: metas não atingidas em prazo, evento adverso, alteração laboratorial, perda de adesão. Escrever o critério de saída prova que havia controle previsto, e não uso indefinido.
Uma forma prática de garantir que nada disso falte é padronizar um checklist na sua ficha — os mesmos cinco campos em toda prescrição de peptídeo.
